Quantos passos valem uma caminhada?, 2018

240'

 

Para a performance me propus a caminhar pela cidade do Oiapoque, iniciando o trajeto na Ponte Binacional Franco-Brasileira, situada na divisa entre Brasil e Guiana Francesa (Saint-Georges City), e finalizando-o nas imediações centrais da cidade, tendo como território definido para esse momento o porto informal de barqueiros, instalado às margens do Rio Oiapoque, que atuava clandestinamente no tráfego de turistas sem documentação que desejavam visitar o departamento francês. Caminhando descalço pelo percurso descrito anteriormente, utilizando roupas brancas e portando nas mãos uma bandeira da mesma tonalidade com medidas de 2,30 m x 2,25 m. A cada templo religioso que encontrava em meu trajeto, em um movimento contínuo, até que houvesse o esgotamento de meu corpo, tremulava a bandeira em suas portas de entrada.

 

O branco, associado à purificação ocasionada pelo sangue de Jesus ou, erroneamente, à simbologia da paz – noções difundidas popularmente nas doutrinas e dogmas cristãos –, neste trabalho dá vazão a uma operação mais complexa, em que articulo a ancestralidade de quem veio antes de mim a partir da utilização de características advindas de Oxalá, especificamente na sua versão griô, Oxalufã. Se, ao observarem meu corpo nos dois momentos em que apresentei a performance, no Amapá e no Espírito Santo, os transeuntes do entorno a associavam a uma cultura de paz, em contraposição a isso percebo o trabalho em uma perspectiva de vingança. É o meu corpo, que esteve aprisionado por anos nessa masmorra, diante dela e sintonizado na força de Oxalá, pedindo por justiça.

A performance compõe a série Exercícios para se lembrar, 2018-2021 e foi formatada e apresentada na Residência e Festival Corpus Urbis – 4ª edição – Oiapoque/AP, em 2018, e no Festival MoV.Cidade em Vila Velha/ES, em 2019.

 

Imagens: Ana Lages